
Tempos de recolhimento e meditação. Refazer os planos, amarrar os cadaços e seguir em frente. Olhar para baixo só se for desviar de algum buraco! No mais, olho para cima... o azul irradiante do céu há de cobrir toda a escuridão que por algumas vezes tenta me tomar.
Danço, grito, choro no espelho... sou normal. Anormal é essa dorzinha insistente aqui. Saudade, amigos e amor de família... tudo na mesma receita. Bolo solado! Penso mesmo que estava certa a minha avó! Antes de qualquer aventura, ela peneirava a farinha... e às minhas perguntas do por quê, ela respondia - ainda que sem paciência - com um sorriso no rosto... "são coisas que a gente não sabe muito bem o por quê, mas que garantem um bolo bem fofinho... é assim e pronto"!
Certa vez aprendi o que significava sabedoria. Minha avó é uma pessoa sábia, certamente. Tem inúmeras experiências e percebo que não desperdiçou nenhuma. Aproveitou cada idade como tem que ser. Suas filhas, seus netos, bisnetos, irmãos, amigos... Cada um a seu momento. Coisas que não se voltam no tempo, mas que - quando bem aproveitadas - fazem uma diferença enorme. Deve ser por isso que ela é uma pessoa tão amada. Até a doença dela... Alzheimer parece ser sábia. E falando disso, tentando ser o mais positiva como ela mesma me ensinou... essa doença me parece um preparatório que ameniza algumas coisas. O fato de viver... viver tudo como se fosse a primeira vez. E depois de acumuladas as experiências... pouco a pouco... vai-se esquecendo. Para que depois renasça e reaprenda. Porque o bom é a aprendizagem. É estar sempre à disposição de se reinventar. De ver o mundo com olhares diferentes do que você já criou. Talvez minha avó esteja vendo assim também. Deve estar...
Queria tua mão sobre meu colo fazendo aquelas dobrinhas na minha calça... Queria sentir seus dedos no coro cabeludo até o meu adormecer... Queria acordar ao teu lado só para ver seus olhos miudinhos esticados num sorriso. Sua sabedoria da farinha faz falta. Meus bolos estão solados.
Fernando Pessoa certa vez, disse algo que agora já é até meio clichê: "tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Minha vó sabia disso... ou pelo menos me enganou!
Um comentário:
ela sabia sim Tati...assim como a gente sabe. a diferença é que ela já se convenceu de algumas coisas...nós ainda teimamos.
bjs enormes. lindo o seu post. senti falta dos meus avós tb.
Postar um comentário